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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Vamos de música?

Postei esse vídeo em homenagem a todas as mães do mundo... Confere lá...



ANGÚSTIA: CONCEITO HEIDEGGERIANO PRESENTE NA OBRA “A HORA DA ESTRELA” DE CLARICE LISPECTOR.

ANGÚSTIA: CONCEITO HEIDEGGERIANO PRESENTE NA OBRA “A HORA DA ESTRELA” DE CLARICE LISPECTOR.

SANTOS, Jardel Phellipe Brito dos
Instituto Diocesano de Filosofia e Teologia

RESUMO
A presente pesquisa tem como finalidade a análise do conceito de angústia apresentado pelo filósofo alemão Martín Heidegger no seu trabalho mais conhecido “Ser e Tempo”, presente na obra “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector, evidenciando as aproximações e a maneira que a autora buscou para utilizar esse conceito no seu conto e as evidências dessa angústia presentes no decorrer da narrativa. A angústia é aquela situação afetiva fundamental que retira o homem de uma estabilidade que não o permite se perceber com o ser mais próprio e isolado do homem. É assim que queremos ver como Clarice constrói na sua narrativa, através da personagem Macabéa, uma nordestina que vai morar no Rio de Janeiro, enfatizando sua passagem da existência inautêntica para uma existência autêntica após seu momento epifânico. O trabalho mostra, ainda que suscintamente, uma possível análise das contribuições da filosofia existencialista para a literatura e, assim, unindo essas artes alargar a visão de mundo que circunscreve o raio de alcance de seus esquemas conceituais. Uma tentativa de apresentar os possíveis diálogos entre Filosofia e Literatura.

PALAVRAS: Angústia, Existência, Heidegger, Clarice Lispector.

INTRODUÇÃO

A presente pesquisa tem como finalidade a análise do conceito de angústia apresentado pelo filósofo alemão Martín Heidegger aplicado à obra “A Hora da Estrela”, da literária ucraniana/brasileira Clarice Lispector, evidenciando as aproximações e a maneira que a autora apresentou esse conceito no seu conto e as aproximações presentes no decorrer da narrativa, finalizando com algumas colaborações acerca do resultado encontrado.
Essa investida surgiu pelo crescente interesse de conhecer as obras de Clarice Lispector e a curiosidade filosófica pela corrente existencialista especialmente em Heidegger, bem como pela busca de interdisciplinaridade que constitui umas das tarefas importantes do presente trabalho, provocando uma possível intersecção entre os escritores supracitados.
Unir Filosofia e Literatura, portanto, alarga e até reformula a visão de mundo que circunscreve o raio de alcance de seus esquemas conceituais, pois o discurso literário faz-se território das racionalidades compartilhadas pelo pluralismo de ideias, de concepções de mundo, de metafísicas soltas, de ontologias que estilizam a angústia contemporânea e mais diversificados assuntos de interesses gerais.

1 O CONTO “A HORA DA ESTRELA”

Esse é o último romance de Clarice. Ela escolhe como narrador o pseudônimo Rodrigo S. M. “É uma história de começo, meio e gran finale” (LISPECTOR, 1998, p. 13). É a narrativa da vida de Macabéa, uma jovem nordestina que sai da sua cidade e vai morar no Rio de Janeiro e trabalhar como datilógrafa. Seus dramas se passam exteriormente, pois interiormente ela nem se sente gente.
Macabéa nasceu em Alagoas e tem 19 anos. Era órfã e não tinha nenhuma recordação dos seus pais e desde cedo morava com uma tia muito religiosa e cheia de preceitos morais adornados de superstições e tabus. Nesse ambiente cresceu a inocente “Maca”.
Com o ócio e a presença tão somente da jovem, a tia, às vezes sem motivo, gostava de dar-lhe cascudos na cabeça só por prazer. Mas o seu pior castigo era privar a garota da goiabada com queijo, sua maior paixão. Foi assim que ela passou a infância sem ter sido criança, sem ter tido amigos, sem ter tido amor de família, sem animais de estimação. Tudo girava em torno da sua tia: única parenta. Mudam-se para a cidade grande.
Apesar de ter estudado pouco e não saber escrever direito, Macabéa faz um curso de datilografia e consegue um emprego, no qual recebe menos que o salário mínimo. Após a morte da tia, deixa de ir à igreja e passa a repartir um quarto de pensão com quatro balconistas de uma loja popular.
Macabéa cheirava mal, pois raramente tomava banho. À noite, não dormia direito por causa da tosse persistente, da azia — em virtude do café frio que tomava antes de se deitar — e da fome, que ela disfarçava comendo pedacinhos de papel.
A moça tinha hábitos e manias que aliviavam um pouco a solidão e o vazio de sua existência. Não se percebia como gente, como ser. Surgem, daí, já alguns indícios daquilo que Heidegger concebe como angústia.
Entretinha-se ouvindo a Rádio Relógio num aparelho emprestado de uma das colegas. Essa emissora informava a hora certa, transmitia cultura inútil e propaganda, sem nenhuma música. A garota colecionava também anúncios de jornais e revistas, que colava num álbum.
Era muito magra e pálida, pois não se alimentava direito. Basicamente vivia de cachorro-quente com Coca-Cola, que comia na hora do almoço, em pé, no balcão de uma lanchonete ou no escritório em que trabalhava. Não sabia o que era uma refeição quente. Seus luxos consistiam em pintar de vermelho as unhas, que roía depois, comprar uma rosa e, quando recebia o salário, ir ao cinema, o que a fazia desejar ser estrela de cinema, como Marilyn Monroe, seu grande sonho.
Certo dia, o chefe de Macabéa, Raimundo, cansado do péssimo trabalho que ela executava, com textos datilografados cheios de erros de ortografia e marcas de gordura, resolve despedi-la. A reação da garota de se desculpar pelo aborrecimento causado, acaba desarmando Raimundo, que decide mantê-la por mais um tempo.
Num dia 7 de maio, Macabéa mente dizendo que arrancaria um dente e falta ao trabalho para poder aproveitar a liberdade da solidão e fazer algo diferente. Assim que as colegas saem para trabalhar, ela coloca uma música alta, dança, toma café solúvel e até mesmo se dá ao luxo de se entediar. É nesse dia que conhece Olímpico de Jesus, único namorado que teve.
Não foi um namoro convencional. Olímpico também havia migrado do Nordeste, onde matara um homem, fugindo para o Rio de Janeiro. Conseguira emprego numa metalúrgica, o que dá delírios de grandeza em Macabéa. Afinal, ambos tinham profissão: ela era datilógrafa e ele, metalúrgico. Sentia dignidade nisso, mesmo sem saber o que seria dignidade.
Mau-caráter e ambicioso, Olímpico morava de favor no trabalho, roubava os colegas e almejava um dia ser deputado. O passeio dos namorados era sempre seguido de chuvas e de programas gratuitos, como sentar-se em bancos de praça para conversar. Nessas ocasiões, Olímpico se irritava com as perguntas que Macabéa fazia, o que a levava constantemente a se desculpar, pois não queria perdê-lo, apesar de seus maus-tratos.
Certo dia, admitindo que ela nunca lhe dava despesa, Olímpico decide pagar um cafezinho para Macabéa no bar da esquina. Avisa, porém, que se o café com leite fosse mais caro, ela pagaria a diferença. Macabéa, emocionada com a "bondade" do namorado, acaba enchendo o copo de açúcar para aproveitar, ficando enjoada depois. Em um passeio ao zoológico, Macabéa, ao se deparar com um rinocerante, fica com tanto medo que urina na roupa e tenta disfarçar para não desagradar ao namorado. Um dia, vendo que só o chefe e sua colega de escritório, Glória, recebiam telefonemas, Macabéa dá uma ficha telefônica para que Olímpico ligue para ela. Ele se recusa, dizendo que não queria ouvir as "bobagens" dela.
Até que, após conhecer Glória, Olímpico decide romper com Macabéa para ficar com a sua amiga. O rapaz considera a troca um progresso, já que elas eram opostas: Glória era loira (oxigenada), cheia de corpo, morava numa casa confortável, tinha três refeições por dia e, o mais importante, seu pai era açougueiro, profissão ambicionada por Olímpico.
Após esse episódio, Macabéa vai ao médico e descobre que tem tuberculose, mas não entende muito bem a gravidade da doença. Sente-se bem só por ter ido ao consultório e não acha necessário comprar o medicamento receitado. Por não se permitir refletir, continua imersa na existência que Heidegger denomina inautêntica, não permitindo que as coisas fora de si sejam percebidas por ela, nem seu valor ou importância.
Com dor na consciência por ter roubado o namorado de Macabéa, Glória a convida para lanchar em sua casa. Macabéa, mais uma vez, aproveita a oportunidade e come demais. Apesar de passar mal, não vomita para não desperdiçar o luxo do chocolate, mas sente remorsos por ter roubado uma rosquinha.
Finalmente, aconselhada por Glória, Macabéa vai até uma cartomante para saber de sua sorte. Lá, é recebida pela própria Madama Carlota, que impressiona a pobre moça pelo "requinte" de sua residência, repleta de plástico, e pela amabilidade afetada com que a trata e por sempre pronunciar o nome de Jesus que tanto ouvira sua tia falar. Após Madama Carlota contar sobre sua vida como prostituta e cafetina, lê as cartas para Macabéa, que, emocionada, pela primeira vez vislumbra um futuro e se permite ter esperança. Afinal, iria se casar com um estrangeiro rico, que daria todo o amor de que ela precisava ou, se quisesse, poderia continuar com Olímpico, pois a cartomante teria visto que ele voltaria para ela e iria lhe propor casamento.
Extasiada com as previsões da cartomante, Macabéa atravessa a rua sem olhar e é atropelada por uma Mercedes-Benz. Caída na calçada e sangrando, seu fim é testemunhado por inúmeros espectadores que se aglomeram em torno dela, sem que nenhum ofereça socorro. Por fim, a garota tosse sangue e morre. Havia chegado a hora da estrela. 
Em um segundo momento, a narrativa prossegue com um novo foco narrativo. Começa quando o narrador, andando pela rua, capta o olhar de desespero de uma jovem nordestina no meio da multidão. A partir daí, nasce Macabéa, que representa a miséria inerente ao autor e a todas as pessoas. Em uma relação de amor e ódio, Rodrigo S.M. narra a vida dessa moça como tentativa de se livrar da sensação de mal-estar que ela representa e que o contagiava, ao mesmo tempo em que se apieda e se revolta, inclusive se sentindo culpado por viver num padrão mais elevado que a maioria da população marginalizada.
Dessa forma, intima o leitor a também se colocar no lugar do outro para experimentar essa miséria e perceber que, no fundo, ela faz parte de todos nós. Por isso, não basta denunciar as mazelas sociais, como a fase anterior que o modernismo pregava, mas induzir o leitor a uma epifania, uma revelação, ainda que despertada pela náusea, como nesse caso. 

2 O CONCEITO DE ANGÚSTIA EM HEIDEGGER

Na primeira parte da obra Ser e Tempo, Heidegger realiza a análise da existência inautêntica na busca do sentido do Ser. A existência inautêntica é uma constatação ontológica e não deve ser confundida com uma constatação moral (boa ou ruim). Sendo assim, para ir até o Ser, o Dasein percorre o caminho da existência autêntica, existência que traz a verdadeira revelação sobre o Ser. Isso só pode ser possível no que ele define como angústia.
Nicola Abbagnano, no seu dicionário de filosofia, apresenta-nos um conceito muito claro e inicial para aquilo que este alemão nos apresenta como angústia:

Angústia é a situação afetiva fundamental, ‘que pode manter aberta a contínua e radical ameaça que vem do ser mais próprio e isolado do homem’: isto é, a ameaça da morte. Na angústia, “o homem sente-se em presença do nada, da impossibilidade possível da sua existência.” Nesse sentido, a angústia constitui essencialmente o que Heidegger chama de “ser para a morte”, ou seja, a aceitação da morte como possibilidade absolutamente própria, incondicional e insuperável do homem” (Sein und Zeit § 53) (ABBAGNANO, 2014, P.63)

Heidegger afasta-se do método fenomenológico formulado por seu grande mestre Edmund Husserl, porque ele tinha pretensão de analisar os objetos do conhecimento tais como se manifestam, como se apresentam imediatamente à consciência. Então, para se chegar ao Ser, deveria passar pelo Homem, aquele que se dá a conhecer imediatamente. A este chama de dasein, ou Ser-aí, ou presença.
Nessa lógica, para esse filósofo, a existência humana apresenta duas possibilidades: uma autêntica e outra inautêntica. A existência inautêntica é a vida cotidiana do homem, constituída de facticidade, existencialidade e ruína; uma decadência no mundo dos demais entes a ponto de confundir-se com eles. Não tendo a capacidade de transcender, sem perceber-se como um ser que pode tornar-se inteiro, em projeções do que ainda não é. O desvio de cada indivíduo do projeto essencial de sua vida.
Essa existência inautêntica torna o homem conformado com sua situação de distanciamento de si próprio e do Ser, acarretando na banalidade e anonimato que desfiguram o homem enquanto presença e manifestação do Ser-no-mundo.
A existência autêntica, por sua vez, é um ser-para-a-morte. Pois, como afirma Reale e Antiseri (2007, p.586) “compreendendo a possibilidade de morte como possibilidade da existência e somente assumindo essa possibilidade com decisão antecipadora é que o homem encontra o seu ser autêntico”.
Em decorrência dessa explicação sobre a existência, encontramos na existência autêntica a angústia, o único meio capaz de reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e então, poder recolher os seus pedaços que foram reduzidos pela imersão na monotonia e indiferenciação da vida cotidiana. Ela não é um sentimento, mas a disposição ontológica fundamental.
É a angústia que leva o homem vencer a traição cometida a si mesmo, responsável pela conversão do homem ao projeto inicial de assemelhar-se ao Ser, do ôntico ao ontológico, leva-o ao conhecimento de sua dimensão mais profunda.
Na angústia, tudo que cerca o homem é envolvido por uma estranheza radical, onde as coisas são desprovidas de importância, causando um sentimento de perda, vazio, solidão. Assim, sem encontrar um motivo no mundo para a angústia, o mundo surge apontando para o nada e o homem percebe-se como ser-para-a-morte. A angústia faz parte do caminho para a existência autêntica. A angústia garante o reconhecimento da necessidade do dasein projetar-se e assim relacionar-se com o mundo.

A partir desse estado de angústia, abre-se para o homem, segundo Heidegger, uma alternativa: fugir de novo para o esquecimento de sua dimensão mais profunda, isto é, o ser, e retornar ao cotidiano; ou superar a própria angústia, manifestando seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo. (CHAUÍ, 1989, P.10)

Essa possibilidade de transcender, o homem percebe-se como capacitado a atribuir um sentido ao seu ser. Fora de si mesmo, sobre o mundo, na relação direta com o mundo que produz e para o qual se projeta incessantemente.
Aceitando a finitude, o homem assume a angústia como referência a sua existência autêntica, aparecendo aí a necessidade de liberdade de tal estágio. É como se a angústia fosse sinônimo de liberdade, uma liberdade que permite ao homem possibilidades autênticas. O próprio Heidegger afirma:

Na presença, a angústia revela o ser para o poder-ser mais próprio, ou seja, o ser-livre para a liberdade de escolher e acolher a si mesma. A angústia arrasta a presença para o ser-livre para... (propensio in...), para a propriedade de seu ser enquanto possibilidade de ser aquilo que já é sempre é. A presença como ser-no-mundo entrega-se, ao mesmo tempo, à responsabilidade desse ser. (HEIDEGGER, 2013, p. 254).

Com essa liberdade, a angústia permite ao homem ultrapassar a barreira do ser inautêntico e chegar ao existir autenticamente, porque é na existência que o dasein se relaciona com o ser e é relacionando-se com o ser que existe, pois é na angústia que se encontra a essência da existência do homem, permitindo que ele possa se entender e se interpretar, atingindo a existência autêntica que o Ser originariamente lhe projetou.

3 A ANGÚSTIA E A HORA DA ESTRELA

Em A Hora da Estrela, Macabéa é apenas uma nordestina ingênua e alheia à realidade e que não sabe o que é aquilo que ela sente. Só sabe que sente algo. Totalmente imersa em uma existência inautêntica, desprovida de um reconhecimento de si mesma em um mundo que lhe é posto diante de si para produzir e, ser-alguém neste mesmo mundo; sem saber o que seja transcender e sem perspectivas, mesmo que mínimas de ser alguém melhor, não capaz de vencer na vida e nas situações cotidianas; moça imersa na indiferença de suas ações – bem como no fato de não importar-se com o rigor formal das cartas que seu patrão solicitava e que eram entregues com inúmeros erros gramaticais e sujas de gordura.
Ela está conformada com a situação de distanciamento do ser que, nem mesmo sabe quem é, lançada na banalidade e no anonimato que lhe causa desfiguração enquanto presença do Ser-no-mundo, tal como Olímpico de Jesus lhe dirige: “- Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. (LISPECTOR, 1977, p.60).
Macabéa era incompetente para tudo, não tinha jeito de gente, de moça de cidade grande. Ela não era percebida nas ruas. Era “um café-frio”. Sentia que o mundo estava fora dela e que ela estava fora de si mesma. Ela não sabia que era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro, por isso não se sentia infeliz: não sabia nem mesmo o que seria felicidade. Não achava que a realidade realmente existisse, não fazia diferença, não precisava mudá-la.
O conto mostra uma moça que queria se encontrar com algo que não sabia. Essa é a necessidade de transcender que Heidegger salientava, a vontade de encontrar-se com o Ser, o objetivo de toda a vida do homem. Ela não conseguia se enxergar como Macabéa, como uma mulher-no-mundo, ela se sentia pequena demais, sem valor.
Depois do seu encontro com a cartomante, ela sai grávida de um futuro. Foi a primeira vez que se permitiu ter esperança. Foi quando sentiu o quanto feliz o sonho lhe poderia fazer.
Atingida pelo Mercêdes amarelo, no chão, sangrando, tem sua primeira reflexão sobre si mesma, “lutando muda, como alguém que se afoga, mesmo que morra depois” (LISPECTOR, 1977, P.81).
Lançada no chão abraçava-se a si própria com vontade do doce nada. Ali, com olhares que a espiavam sentiu pela primeira vez que estava viva, que tinha existência. Agora era uma existência autêntica, sentia que nascera da morte. Ela foi no mais profundo de si buscar a essência de ser ela mesma, de voltar para aquele projeto inicial que o Ser lhe destinara.
Agora via na morte que lhe abraçava, a nova possibilidade de assumir sua existência que por muito tempo acreditava não ter. A angústia de estar ali, sozinha, mesmo com olhares curiosos que não lhe estendiam mãos e nem prestavam socorro, lhe conduzia ao encontro de si e da sua totalidade como ser. Ela se amou. Ela iniciou seu ritual de recolher os pedaços de sua vida medíocre e inócua.
Ela venceu a barreira que lhe impedia de existir, rompeu com o estranhamento do cotidiano. Atingiu a parte que fora feita. Queria vomitar algo que não corpo, vomitar algo luminoso. Ela transcendia de encontro com o ser-livre. Era seu destino e agora ela o aceitava.
Ali, deitada, refletindo sobre aquilo que estava acontecendo, uma nova realidade passava por ela. Ela conseguia sentir que o mundo possuía uma vida fora dela e que estava ali. Ele começou a sentir o mundo. Sentiu-se no mundo pela primeira vez. Sentiu-se gente, mulher. Sentiu que estava viva, mesmo que ainda por pouco tempo. Percebeu-se. Era seu momento. Estava nascendo.

APROXIMAÇÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS

Clarice Lispector tem uma forma bem peculiar, nesse conto, na sua maneira de narrar. Interessante é perceber o quanto demora fundamentalmente ao refletir na narrativa a questão do Ser, a história mais autêntica, segundo Heidegger, que adensa a história factual quando os homens acolhem os sinais dos tempos ou os repele, numa práxis de encontros ou de desencontros, aumentando o teor de imprevisibilidade dos eventos.
Nesse enredo, Clarice abre perspectivas numa zona de transição em que a personagem atinge um clímax de tempo, de sofrimentos, de déficits existenciais, propícios à ascensão mística ou transcendência, ao encontro com o Ser, não com Deus, pois essa não é a pretensão de Heiddeger.
Com ela há uma grande valorização da interioridade. Uma interioridade inerente à história do Ser que é a sementeira dos acontecimentos, formando o conhecimento antecipado dos fatos futuros, algo parecido com a formulação de Heidegger para a angústia que pretende antecipar o acontecimento da morte, que é a possibilidade da não possibilidade de não mais ser. Ela, voltada em si, percebe-se como uma pessoa e que sente com o mundo, no mundo.
Durante a vida de Macabéa era comum sua estranheza com o mundo. As coisas aconteciam com ela, mas nada lhe afetava e não conseguia deixar nada de si nos demais entes. Esse sentimento encontra ressonâncias com o que Heidegger concebeu como angústia. No § 40 da obra Ser e Tempo, ele nos apresenta a angústia como a experiência reveladora do Nada. Na visão do filósofo, a angústia propicia a tendência para a abertura e desvelamento do dasein: “[...] é preciso lembrar que a constituição fundamental da presença é ser-no-mundo. Aquilo que a angústia se angustia é o ser-no-mundo como tal” (HEIDEGGER, 2002, P.249).
Da angústia se dá a abertura para o mundo e assim a perplexidade de Macabéa diante de si mesma, da nova realidade que encontra ali, no chão, mesmo que morrendo muda, o narrador nos faz ir além e mostra-nos sua chegada à existência autêntica, a ressignificação de ser Macabéa.
 Vencida a angústia, não retorna ao seu estado anterior. O momento Epifânio esperado pelos leitores claricianos acontece: nasce uma nova estrela, uma nova Macabéa. Uma nova criatura com uma existência direcionada ao Ser. Uma existência autêntica antes de morrer fisicamente.
Caminhos que se encontram e que se completam: a poética de Clarice e a reflexão de Heidegger, ambas percorrendo a mesma trilha, alicerçada pelo sentido do Ser. No desenrolar do conto, aparece vivo o movimento e a prática da eterna questão que guiou a história do Ser: quem sou eu? “É que ‘quem sou eu?’ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade: quem se indaga é incompleto” (LISPECTOR, 1998, P. 15).
Nesse ínterim, é importante ressaltarmos que a finalidade deste trabalho não é apresentar uma análise definitiva que forneça a compreensão da complexidade que as obras de Clarice e o pensamento de Heidegger abarcam. É, antes de tudo, a tentativa de evidenciar um possível diálogo entre a Filosofia e a Literatura; um diálogo, por vezes, tenso, mas com um fio ainda que tênue ligando as aproximações e distâncias dessas distintas áreas de conhecimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HEIDEGGER, MARTIN. Ser e Tempo. Trad. Márcia Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 2013.

KAHLMEYER-MERTENS, ROBERTO S. 10 lições sobre Heidegger. Petrópolis: Vozes, 2015.

ABBAGNANO, NICOLA. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

LISPECTOR, CLARICE. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

ANTISERI, DARIO; REALE, GIOVANNI. História da Filosofia. Vol. 3. 8ª ed. São Paulo: Paulus, 1990.


Resumo da obra “O papel do indivíduo na História”, de Plekhanov.


Resumo da obra “O papel do indivíduo na História”, de Plekhanov.
O livro é dividido em três partes e tem como finalidade explicar o papel do indivíduo no decorrer da História e quais as contribuições que ele forneceu para que esta fosse feita, escrita. Não me refiro aqui aos registros, mas as ações e pessoas registradas.
            Os dois primeiros capítulos se encaminham para a explicação ou tentativa de exposição de um panorama do que se compreendia como Filosofia da História, com a apresentação de diversos escritores da época e as divergências e congruências entre eles.
O autor pertence à primeira geração dos marxistas russos e foi o principal propagandista do materialismo histórico e dialético (cânon da proposta histórica de Karl Marx, onde a consciência do homem provém das suas relações de produção). Enfrentou a corrente economicista, que limitava a tarefa das classes operárias à luta econômica por aumento de salários e melhorias das condições de trabalho.
Quanta ironia vê-se na vida deste autor, pois aquele quem melhor esclareceu o papel do indivíduo nas transformações históricas, não apoiou a maior transformação de sua época.
Ele foi, ainda, aquele que fez a melhor exposição do marxismo e do materialismo histórico. O que há de melhor na literatura internacional acerca deste assunto é feita por ele, como atestam vários outros autores, como Lennin.
Qual é então o papel do indivíduo na História? A História decorre em função de leis objetivas, mas são os homens que fazem a História, fazem-na avançar ou atrasam-na consideravelmente na medida em que atuam ou não em função dessas leis. Sem os indivíduos não há revolução, mudança. E, de uma maneira ou de outra, todos os indivíduos participam do desenvolvimento histórico da humanidade.
O autor, segundo a defesa marxista que prega o modo de produção econômica da existência dos homens como determinante da sua organização em sociedade, convenciona-se ao socialismo como uma possibilidade histórica e objetiva na medida em que os revolucionários o assumem com vontade e ação consciente.

I – Da filosofia da História
            A História é movimento e cada período tem sua própria filosofia da História, que é a reflexão filosófica sobre um determinado momento passado. Durante os séculos surgiram alguns tipos de concepções da à cerca dessa reflexão, dentre elas:
A)   A concepção teológica da História: se detêm naquilo que o homem vê na natureza; marcada pelo animismo; é a explicação da História pela ação direta ou indireta de uma divindade. Seus maiores influentes, Santo Agostinho e Bouset, acreditam que, tudo só acontece com a permissão de Deus e, as revoluções dos ímpios são reguladas pela providência, respectivamente.  Ela perde credito porque a ciência ganha espaço. Porem, a verdadeira ciência consiste em estudar as causas das mudanças procuradas em cada época. Grandes necessidades de estudar as causas partículas dos acontecimentos, eis o papel das ciências.
B)   A concepção idealista da História: consiste em explicar esta evolução histórica pela evolução dos costumes e das ideias ou opiniões ou da opinião. A opinião governa o mundo e é a causa fundamental, mais profunda do movimento histórico. Seu grande representante é Voltaire. Ele se atém ao histórico e a sua filosofia da história é uma interpretação científica da História. Holbach e Helvitus, ambos materialistas, acreditavam que a opinião governava o mundo e que sua evolução explica toda a evolução histórica e que a ignorância é a causa do mal moral e político. A ignorância é uma opinião errônea. Essa concepção é verdadeira e inválida simultaneamente. Verdadeira porque há uma parte de verdade, pois a opinião tem grande ifluência sobre os homens. Locke contribui com a negação da existência das ideias inatas, afirmando que as ideias e os princípios dos homens provêm da experiência. Quando os homens condenam determinada ação é porque ela os prejudica. Quando a enaltecem, é porque lhe é útil. Não existem ideias inatas no espírito dos homens; é a experiência que determina as ideias especulativas e é o interesse social que determina as ideias práticas.
C)   Pós Revolução Francesa: aconteceu a destruição do antigo regime e o varrimento dos seus vestígios, sobrando a lassidão e o ceticismo, descredito de todas as doutrinas e do próprio indivíduo.
D)   A Filosofia da História de Saint-Simon: ela se propõe em estudar os fatos relativos à vida passada da humanidade para descobrir as leis do progresso e poder prever o futuro compreendendo o que fora vivido. Aqui, o interesse histórico leva a concepção histórica, o interesse dos grandes elementos constitutivos da sociedade.
E)   Augustin Thierry e de Mignet: sempre o povo e os cidadãos – a grande massa -, são a matéria para o pensamento de um só homem, o grande homem, o herói. A massa age segundo seus interesses. O interesse é a fonte, o móvel de toda criação social. É fácil compreender, pois, que, quando uma instituição se opõe ao interesse da massa, esta começa a lutar contra tal instituição. E, como uma instituição prejudicial à massa do povo é amiúde útil à classe privilegiada. A luta das classes entre homens e interesses opostos desempenha um grande papel na filosofia da História. Com Mignet, os interesses decidem o movimento social. Algo era necessário antes de se tornar fato, e foi depois um fato, deixando de ser necessário, terminando por deixar de ser um fato. Não só os homens que conduzem as coisas são as coisas que conduzem os homens. A força que domina se apodera sempre das instituições. Pois, antes de se transformarem em causa, as instituições são efeito; a sociedade as produz antes de ser modificada por elas; e, em lugar de buscar no sistema ou nas formas de governo qual era o estado do povo, é necessário examinar primeiro o estado do povo para saber qual devia ser ou qual pode ser o governo.
F)   A filosofia histórica de Schelling: aqui aparece o conceito de liberdade. Os homens são dotados de consciência e vontade. A necessidade é a condição e o fundamento da liberdade. Para ele, a liberdade é impossível sem a necessidade. Se, ao agir, só posso contar com a liberdade dos outros homens, ser-me-á impossível prever as consequências de meus atos, uma vez que, a cada instante, o meu cálculo mais perfeito poderia ser completamente frustrado pela liberdade de outrem e, por conseguinte, poderia resultar de nossos atos algo muito distinto do que se havia previsto. Agindo de maneira necessária, os homens podem, ao mesmo tempo, conservar plena liberdade em seus atos.  Um ato necessário é um ato que um dado indivíduo não pode deixar de realizar em circunstâncias determinadas; a impossibilidade está na natureza do indivíduo. Eu sou livre quando posso agir como quiser.
G)   A filosofia histórica de Hegel: para este, é o Espírito ou a Ideia que constitui o fundo e como que a alma de tudo o que existe; a própria matéria. Ela não passa de uma maneira do ser do Espírito ou da Ideia. Assim, a História é apenas o desenvolvimento do Espírito Universal no tempo. Os fatos são tomados tais como são, e o único pensamento que ela, a inteligência, neles introduz é o pensamento de que a razão governa o mundo. A razão que governa a história é uma razão inconsciente, é o conjunto de leis que determinam o movimento histórico. A opinião é determinada pela maneira de viver, pelo estado social. O Estado deve sua origem à luta dos pobres contra os ricos. O estado social é a base mais profunda da vida dos povos. Sendo assim, o Espírito é o móvel último do movimento histórico. Quando um povo passa de um grau a outro grau de evolução, é que o Espírito Absoluto, de quem esse povo é apenas agente, eleva-se a uma fase superior de seu desenvolvimento. Ai nos deparamos com um ciclo vicioso,  que tenta explicar o estado social pelo estado das ideias e o estado das ideias pelo estado social.
H)   A concepção marxista da História: aqui, as relações periódicas e as formas de Estado detêm suas raízes nas condições materiais da existência. Mas, quais são as causas determinantes da Sociedade Civil? É, pois, na economia política que devemos buscar a anatomia da sociedade civil. É o Estado econômico de um povo que determina seu estado social e este estado social determina o seu estado politico, religioso, etc. Para Marx, todo movimento histórico é a luta que o homem trava com a natureza para assegurar sua própria existência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que lhes determina o ser, ao contrário, seu ser social determina sua consciência. As ideias fundamentais de Marx se fundam sobre as relações de produção que determinam todas as outras relações que existem entre os homens na sua vida social. As relações de produção são determinadas, por sua vez, pelo estado das forças produtivas. O estado das forças produtivas determina o resultado da luta. Para mostrar isso, o filósofo considera que o homem é um animal como os outros, mas a sua diferença é que ele fabrica armas, instrumentos de trabalho. Assim, a transformação corporal do homem cessa, ou se torna insignificante, para cede lugar a sua evolução técnica, e a evolução técnica é a evolução das forças produtivas, e a evolução das forças produtivas tem influencia decisiva sobre o agrupamento dos homens, sobre o estado de sua cultura. Existe uma conexão entre a produção e o regime de propriedade e as relações entre os homens durante o processo de produção que decidem as relações de propriedade, do estado da propriedade.

 II – Da concepção materialista da História
A concepção materialista da História é diferente de materialismo econômico. Materialismo econômico é aquele que atribui ao fator econômico importância predominante na vida social.
O autor apresenta os conceitos de outros dois pensadores: Loius Blanc e Roger. Para eles, o materialismo econômico não exclui o idealismo histórico. Mas, para Labriola, suas concepções históricas são uma contraposição direta ao idealismo histórico, apresentando a luta de classes como luta de interesses materiais.
Com ele, cada ciência estuda a atividade do ser social de maneira peculiar e cada uma delas é um fator do desenvolvimento social. O fator histórico-social é uma abstração. Cada um dos fatores influi em todos os outros, havendo uma reciprocidade, e isso leva à uma confusão que não promove liberdade e autenticidade do estudo de um fato isolado. Por isso mesmo se faz necessário a busca de um fator que seja a causa fundamental e primária do surgimento do outro. Hegel aplicava a atividade do ser social pelas propriedades do espírito universal.
Outra proposta é a concepção teleológica. Ela fora tirada pelo materialismo dialético das ciências sociais. São os homens que fazem a sua história não em direção ao absoluto, enrijecido, mas procurando atender a necessidade e as ciências devem explicar como influem as diferentes formas de satisfação dessas necessidades nas relações sociais dos homens na sua atividade espiritual. As maneiras de satisfação são determinadas pelo estado das forças produtivas.
Para os idealistas, as relações econômicas são uma função da natureza humana e, os materialistas consideram essas relações como uma função das forças produtivas da sociedade.
Aqui é explanado um pouco sobre o Darwinismo Social, no qual o homem, em sua luta pela existência, precisa se adaptar-se ao meio. As raças são resultados dessa adaptação direta ao meio natural. Além disso, surge o meio artificial, ou meio social, como condição necessária de qualquer progresso ulterior.
É o homem que faz sua história tentando satisfazer suas necessidades. Evidentemente, essas necessidades são determinadas em sua origem pela natureza; logo, porem, transforma-se de modo considerável, quantitativa e qualitativamente, por influência do meio artificial.
Do ponto de vista da moderna concepção materialista da História, tudo assume um aspecto completamente diferente. Os “fatores” históricos aparecem então como simples abstrações e, quando se dissipa essa névoa, torna-se claro que os homens não fazem histórias isoladas umas das outras - história do direito, história da moral, história da filosofia, etc. – mas somente uma História: a de suas próprias relações sociais, condicionadas em cada momento pelo estado das forças produtivas. O que chamamos ideologias nada mais são do que reflexos variados no cérebro dos homens dessa História única e indivisível.

Plekhanov
  
III – O papel do indivíduo na História
Para o materialismo histórico, o indivíduo não possui um papel na história, ele sacrificava ao fator econômico todos os demais e reduzia a zero à presença do indivíduo. Price diz que o materialismo é incompatível com o conceito de liberdade e elimina toda iniciativa do individuo.
Surge nesse período uma doutrina de cristãos necessários que afirmavam o principio da vontade e negavam o livre arbítrio e subordinavam o mundo à fatalidade. Aparece também o “quietismo”, doutrina que coloca sua vontade nas mãos de Deus sem participar de qualquer religião. É absolutamente para sua tranquilidade moral, o que a leva sempre, apaixonadamente, a ocupar essa posição.
Assim, quando a consciência da falta de liberdade de minha vontade se me apresenta unicamente sob a forma de uma impossibilidade total, subjetiva ou objetiva, de proceder de modo diferente ao que procedo, e quando minhas ações são para mim, ao mesmo tempo, as mais desejáveis entre todas as possíveis, nesse caso a necessidade se identifica em minha consciência com a liberdade, e a liberdade com a necessidade; não posso opor uma à outra; não posso sentir-me travado pela necessidade. Assim, como Simel já dizia: “a liberdade é sempre liberdade em relação a alguma coisa”.
A liberdade é a necessidade de consciência e a consciência da liberdade absoluta de um fenômeno só pode aumentar a energia do homem que simpatiza com ele e que se considera a si próprio uma das forças que originam esse fenômeno. Hegel já afirmava: “a liberdade não é mais do que a afirmação de si mesmo”.
Já o Sr. Kareiev e todos os subjetivistas sempre atribuíram ao indivíduo um papel muito importante na História. Porém, seus adversários fazem de tudo para rebaterem essas proposições.
Os acontecimentos e as personagens verdadeiramente importantes são principalmente sinais e símbolos das diferentes etapas dessa evolução, mas a maioria dos acontecimentos chamados históricos são, para a verdadeira História, o que, para o movimento profundo e constante das marés, são as ondas que surgem à superfície do mar, brilham por um momento com sua luz viva para logo quebrarem-se na costa arenosa, desaparecendo se deixar vestígio.
O homem pode, na verdade, em todos os momentos, por uma súbita decisão de sua vontade, introduzir nos acontecimentos de que participa uma força nova, inesperada e variável, capaz de modificar- lhes poderosamente o curso mas que, não obstante, não se presta a ser medida, devido à sua variabilidade.
Desse modo, as particularidades individuais das personalidades eminentes determinam o aspecto individual dos acontecimentos históricos, e o elemento casual, no sentido que indicamos, desempenha sempre certo papel no curso desses acontecimentos, cuja orientação é determinada, em última instância, pelas chamadas causas gerais, isto é, de fato, pelo desenvolvimento das forças produtivas e das relações mútuas entre os homens no processo econômico-social da produção, que aquele determina. As relações sociais têm sua lógica: enquanto os homens se encontrarem em determinadas relações mútuas, necessariamente sentirão, pensarão e atuarão assim e não de modo diverso.
Monod supõe que os acontecimentos e indivíduos verdadeiramente importantes na História somente são importantes como sinais e símbolos do desenvolvimento das instituições e das condições econômicas. É um pensamento acertado, embora sua formulação seja muito imprecisa. Mas, exatamente porque seu pensamento, não se justifica opor a atividade dos grandes homens “ao movimento lento” das referidas condições e instituições. Ele sempre exige a intervenção dos homens, diante dos quais surgem, assim, os grandes problemas sociais.

Os grandes homens tem aberto diante de si um amplo campo de ação, mas todos os que têm olhos para ver, ouvidos para ouvir e coração para amor o próximo. O conceito de grande é relativo. No sentido moral é grande todo aquele que, como diz a expressão evangélica, “sacrifica sua vida pelo próximo’’.